Na fila do supermercado – Marina Colasanti

Estava eu na fila do supermercado chegando à caixa com um carrinho cheio de compras, quando ela veio com algumas poucas coisas na mão e perguntou se podia passar à minha frente. Respondi, com um sorriso, que melhor seria ir duas caixas mais para lá, na fila de urgência para pessoas com poucas compras. Respondeu, quase com violência, que se ela quisesse ir para a outra caixa já teria ido, estava me pedindo para passar à minha frente, só isso.
A esta altura eu já começava a descarregar o carrinho, e me dei conta de que ela havia pedido permissão também a um jovem senhor que devia estar atrás de mim. O qual, incomodado com a violência com que ela havia me respondido, disse que agora, tendo sido ela grosseira comigo, não daria o seu lugar.
Ela fechou a cara, e permaneceu impávida entre o homem e eu.
Era vagamente loura, vagamente pálida, vagamente acima do peso. Não sei que idade teria, evitei olhá-la.
Logo, minhas compras haviam passado todas, eu ia tirando a carteira da bolsa. Então, algo rompeu-se dentro dela, e eu a vi espalmar as mãos na bancada de inox e gritar:”Não aguento mais! Não aguento mais!”.
Abaixava e erguia a cabeça, dava socos na bancada, agitando o tronco. “Não aguento mais! – repetia aos brados- Estou cansada!….. Cansada! “.
Eu a olhava sem saber se devia abraçá-la, dizer-lhe alguma coisa, tentar apaziguá-la. Pareceu-me que não. Aquilo era um ato individual, um transbordamento que nada tinha a ver conosco, que de alguma forma nos ignorava. Não era um pedido de ajuda.
Ninguém se moveu, embora as cabeças se voltassem na sua direção. Os gritos dela ecoavam no supermercado. E os socos no inox. Entre as exclamações, em estilhaços de palavras entendeu-se que cuidava de uma irmã doente. Cuidava dela sozinha. Repetiu várias vezes “Sozinha!”.
Os mais próximos se entreolhavam, sem saber se era um surto que necessitaria do atendimento de um profissional, ou apenas uma rachadura provocada por exaustão.
Alguém pediu água. Há sempre alguém que pede água quando outro alguém sai da normalidade. E a água materializou-se, copo de plástico trazido por uma gerente. Temi que ela o varejasse com a mão, mas nem o tomou nem o recusou, talvez, tão voltada para dentro de si mesma, não o visse. Mas, seja pelo copo, seja pelo gesto, a tensão pareceu baixar.
Disse ainda, agora falando mais baixo, que ninguém cuidava dela, que com ela ninguém se importava, era só trabalho e mais trabalho cuidando dos outros, tudo com ela, sempre com ela, e para ela nada.
A gerente perguntou onde morava, ofereceu-se para mandar alguém acompanhá-la até em casa. Ela sacudiu a cabeça negando companhia.
Respondeu, mais para si mesma do que para a outra, que estava na hora do almoço da irmã, que tinha que ir, que estava tão, tão cansada. Em seguida pagou suas poucas compras, e saiu para o sol da calçada.
Nós ficamos ali, deglutindo a cena através de comentários que só serviam para isso, para diluir aquela entrega involuntária, a visão dolorosa da ferida exposta. Ninguém tinha respostas a dar. Só perguntas , conjecturas e inquietação.
Tivesse eu dado a ela o meu lugar na fila, é quase certo que não haveria ruptura. Sem encontrar obstáculos, ela passaria pela caixa como qualquer outro cliente que compra e paga, sem que nada a distinguisse dos demais. Aqueles gritos, aquela revolta que sequer tentamos acalmar, teriam passado por nós insuspeitados, trancados num corpo de mulher semelhante a tantos. E, no silêncio do supermercado, não seriamos levados a refletir sobre nossa insuficiência frente ao sofrimento alheio.

2 comentários em “Na fila do supermercado – Marina Colasanti

  1. Nossa que relato. Não sei ao certo o que dizer. A evasão é sempre necessária, constantemente não olhamos para o outro como olhamos para nós, ou ainda melhor, nunca olhamos para nós por isso nunca nos reconhecemos no outro. Da mesma maneira que ela teve uma necessidade de extravasar e sair do que as pessoas denominam “normalidade, pegar, pagar e ir embora”, qualquer um naquele supermercado poderia ter feito o mesmo. E que atitude tomar? Dar lugar na fila não resolve o problema dela mas ameniza para que ela não necessite transbordar talvez. As pessoas só precisam ser ouvidas as vezes e deixar com que digam, gritem, batam, faça o que elas quiser fazer para liberar aquele fardo tão pesado dentro dela. As vezes não diga nada, apenas a olhe nos olhos e concinta com a cabeça em sinal de aprovação. Ela irá se sentir mais confortavel por saber que ninguém invadiu sei espaço e ao menos alguém apenas a ouviu e a observou que era tudo o que ela mais precisava.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Isso, Maria Vitoria! Nós nunca sabemos o que fazer quando o outro transborda, mas é tão particular isso, né? Ambos vivemos em linhas tênues de esgotamento, poderia mesmo ser qualquer um ali…Mas, é isso mesmo, “nós nunca olhamos para nós por isso nunca nos reconhecemos no outro” isso define muito esse texto! Obrigada pela reflexão, Maria! bjos!!

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s