O casamento- Antonio Prata

Dia desses eu recitei um trechinho dessa crônica no stories do meu insta @maby_ferr (quem me acompanha por lá ouviu), hoje resolvi mostra-la completa aqui. Aproveitem.

“Quando o Cassiano me chamou pra falar aqui, na cerimônia, eu lembrei do dia que a gente se conheceu, na fazenda de uns amigos dos nossos pais. Ele devia ter uns oito, nove anos. Tinha um cabelo cuia, loiro, e andava pra lá e pra cá com um tecladinho Casio debaixo do braço: era uma versão um pouquinho mais moderna do Schroeder, aquele personagem do Snoopy. Mas o que eu mais lembro daquela viagem não é da dupla Cassi & Casio. É de uma noite na salona da fazenda, quando o Alexandre (seu pai) chamou ele no meio dos adultos e perguntou:

– Cassiano, qual foi o único conselho que eu te dei, nessa vida?

E o garotinho de cabelo cuia, que já devia tar acostumado a responder àquela pergunta pôs a mão à frente, assim, num gesto teatral, e disse:

– Seja louco, meu filho!

Ainda bem que um dos primeiros mandamentos dos filhos é frustrar as expectativas dos pais, e quando eu comecei e ler os textos do Cassi na Folha, eu pensei: xi, o Alexandre deve tá desapontado! Mas só há pouco mais de um ano eu tive certeza que o meu amigo ia mesmo ignorar o único conselho paterno. Foi quando ele me apresentou a Carol e disse, essa é a minha namorada. Ali eu saquei: ele tava no caminho certo. Ela é linda, gente fina, inteligente, a família dela faz goiabada, o que mais que um homem pode querer?

De louco portanto, o Cassiano não tinha nada. Ou… Será que tinha? Enquanto eu escrevia esse texto, fiquei pensando naquela cena da fazenda, lá por 1983, pensei na geração dos nossos pais e na nossa e comecei a achar que talvez eu tivesse errado. Que talvez, pra quem nasceu nos anos setenta, filho da geração que foi hippie, que morou em comunidade, que queimou sutiã e o escambau, a verdadeira loucura seja essa: o casamento. A gente não foi criado pro compromisso, nem pra doação. Somos uma bola dividida entre os hippies e os yuppies: de um lado, o discurso libertário, do outro, o individualismo.

Não é à toa que hoje em dia, quando se fala em amor, os versos que mais surjam sejam os últimos do soneto da Fidelidade, do Vinícius: “Que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. São versos lindos, claro, mas eu sempre achei que evocar eles no começo de uma relação envolve 50% de lirismo e 50% de picaretagem. Como assim, “que não seja eterno?” Se você ama, a primeira coisa que deseja é que seja pra sempre, não? Pra que abrir a porta de entrada já de olho na porta da saída? Eu também implico com o “posto que é chama”. A chama é algo que nos queima, é ela o agente da ação, nós somos o objeto, a lenha. Longe de mim remendar o Vinícius, mas acho, ou na verdade, espero, que a gente tenha um papel um pouquinho mais ativo numa relação amorosa. Que possa alimentar essa chama, botar mais lenha na fogueira, abanar o fogo. Por isso sempre achei que a parte mais bonita do Soneto da Fidelidade não é o final, mas o começo: “De tudo ao meu amor serei atento, antes.” Essa máxima devia tá colada nos vidros dos carros, nos espelhos dos banheiros, devia tá escrita nas faixas dos caminhões, o ministério da saúde tinha que mandar imprimir nos maços de cigarro e os chineses deveriam incluir nos biscoitos da sorte: “De tudo ao meu amor serei atento antes”. Antes do trabalho, antes dos compromissos sociais, antes do dinheiro, do sucesso e de todas as outras imposições egoístas da nossa época, o amor. Essa é a verdadeira loucura. Por isso que, terminando, eu desejo a vocês a mesma coisa que o Alexandre desejava pro Cassiano, lá por 83: sejam loucos, meus amigos!

De tudo, ao amor de vocês sejam atentos antes e façam o que tiver ao alcance pra serem felizes para sempre! O senhor já pode beijar a noiva”

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